4 de jun de 2013

Dificuldades e Limitações da Avaliação do Ciclo de Vida (ACV)

DIFICULDADES E LIMITAÇÕES DA AVALIAÇÃO DO CICLO DE VIDA (ACV)

MARISA DANIELE SCHERER

INTRODUÇÃO

A sustentabilidade do planeta é uma responsabilidade coletiva e para que se cumpram essas responsabilidades são necessárias ações para a melhoria do meio ambiente, o que resulta na adoção de práticas de produção e consumo sustentável. Qualquer produto independente de que material seja oriundo (madeira, vidro, plástico, metal ou qualquer outro elemento), provoca um impacto no meio ambiente, seja em função de seu processo de produção extração das matérias-primas que consome ou devido ao seu uso ou disposição final (CHEHEBE, 1998), e diante da necessidade do desenvolvimento de técnicas mais sustentáveis de produção surgiu a Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), ferramenta esta que avalia todas as etapas de um processo e/ou produto, desde o momento da extração até a disposição final.

REVISÃO DA LITERATURA

A elaboração de um estudo de ACV permite desenvolver uma sistemática avaliação das consequências ambientais associadas com um dado produto, analisar os balanços (ganhos/perdas) ambientais, possível quantificar as descargas ambientais para o ar, água, e solo relativamente a cada estágio do ciclo de vida e/ou processos que mais contribuem, avaliar os efeitos humanos e ecológicos do consumo de materiais e descargas ambientais para a comunidade local, região e o mundo, comparar os impactos ecológicos e na saúde humana entre dois ou mais produtos/processos rivais ou identificar os impactos de um produto ou processo específico, também é possível identificar impactos em uma ou mais áreas ambientais específicas de interesse (FERREIRA, 2004).
Segundo Lima et al (2007) são diversos os setores produtivos que utilizam a ACV, tais como: construção civil, automobilístico, embalagens, energia, agropecuário, mineração, químico, etc., porém, não existe uma evolução progressiva dos trabalhos, mesmo com o crescimento do número de estudos em ACV no período entre 2003/2004, possivelmente em decorrência da publicação da primeira norma ABNT/ISO 14.040, o que facilitou o acesso à informação sobre o tema
Pode-se notar que a técnica de ACV possui diversas aplicações e nos mais diversos segmentos, porem a sua aplicação encontra diversas dificuldades, como a falta de profissionais capacitados e a principalmente a disponibilidade de bancos de dados contendo informações de matérias-primas básicas, como energia, aço, cimento, combustíveis etc., e isso
se agrava no Brasil devido a escassez de dados brasileiros, onde emprego dessa metodologia devido a falta de banco de dados pode levar a resultados de confiabilidade questionável.
Outra dificuldade da aplicação da ACV para a avaliação de impactos ambientais é obtenção de informações e bases de dados confiáveis e completos para os materiais utilizados em um processo ou produção de um produto, atribui-se esse fato de que muitas empresas fornecedoras terem receio de divulgar seus processos produtivos, cujos motivos podem estar relacionados a questões como concorrência, plágio no processo produtivo ou transmissão de imagem negativa associada à empresa. Alem disso, mensurar e analisar os impactos causados pelo transporte de produtos, e segundo estudos realizados pelo IPCC (1988) o setor de transportes é um dos grandes poluidores que ainda não implementa, de modo significativo, projetos para mitigar os efeitos emitidos pela queima de combustíveis, e no Brasil, o cenário se agrava devido a maior parte do transporte de insumos ser realizado majoritariamente por via rodoviária e em grandes distâncias.
A ACV é uma técnica ainda em evolução, e por essa razão, análises comparativas de processos ou produtos devem ser evitadas, onde nos casos de comparações levadas ao conhecimento público, dadas as limitações da ACV, deve-se obedecer ao estabelecido na norma NBR ISO 14040. Também deve-se ainda observar que, em virtude da complexidade da ferramenta, podem existir ainda incertezas na qualidade dos dados e nos seus resultados, além de haver um certo grau de subjetividade decorrente da necessidade de julgamento e discernimento por parte dos especialistas encarregados da condução do estudo, como também limitações de conhecimento científico disponível.
Como ressaltam Almeida e Giannetti (2006), para tornar a aplicação da ACV viável, faz-se necessária a simplificação de alguns aspectos. Outra limitação da ACV ocorre em virtude de esta não mostrar o sistema de uma forma dinâmica expressando somente um determinado momento em que o sistema se encontra.
Almeida e Giannetti (2006) complementam que uma ACV possui muitas fontes de incerteza, como por exemplo, a escolha de uma unidade funcional equivocada, que pode levar a distorção nas análises. E outra fonte de erro é a desconsideração de uma etapa por deduzir incorretamente que esta não influência nos resultados finais. Todas essas limitações interferem na confiabilidade dos dados, fazendo com que os resultados finais não representem fielmente as condições do sistema.
De acordo com Tibor e Feldman (1996), estes estudos são intensivos em tempo e recursos, a coleta dos dados necessários pode ser complexa e a qualidade dos dados obtidos pode não ser satisfatória. Para o autor, as relações de causa e efeito no processo de avaliação
de impactos são difíceis de descobrir, pois, mesmo sendo possível medir ou estimar as entradas e saídas de um sistema industrial, nem sempre fica clara a ligação existente entre estes fatores e os impactos ambientais, alem disso, Costa (2007) menciona que a exatidão dos estudos também pode ser limitada pela acessibilidade ou disponibilidade de dados coerentes ou pela qualidade dos dados relacionada ao período de tempo e a área geográfica cobertos, as tecnologias abordadas, a precisão e a representatividade dos dados.
Mesmo com essas limitações, a ACV não deixa de ser uma ferramenta importante para a identificação dos impactos ambientais causados pelos produtos, possibilitando, a partir de sua interpretação, elaborar estratégias para redução desses impactos e alternativas para melhoria de processos e produtos, e os benefícios obtidos se sobressaem, pois as informações obtidas no estudo podem auxiliar no processo de tomada de decisão, podendo desta forma contribuir para o planejamento estratégico da organização.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como pode ser observado no referencial teórico, a ACV pode ser empregada nos mais diversos segmentos, onde é possível comparar produtos disponíveis no mercado, mostrar a carga ambiental associada ao ciclo de vida de um produto, ou mostrar a importância relativa dos estágios do ciclo de vida do produto, e independente de qual seja o motivo de sua aplicação, sempre pode trazer algum tipo de benefício para a organização. Porem para obtenção dos benefícios que a ACV proporciona, sua aplicação envolve uma série de etapas estabelecidas pelas normas da ISO 14.040 a 14.044 como a definição do objetivo e escopo, análise do inventário do ciclo de vida, avaliação de impacto e interpretação, onde estas necessitam de tempo, recursos e recursos humanos qualificado para serem executadas. No entanto, devido ao fato de que a ACV envolve várias questões ambientais, esta ferramenta possibilita obter uma visão geral dos aspectos e impactos ambientais associados ao produto, fornecendo subsídios que permitam a implementação de melhorias em todo o seu ciclo de vida. E mesmo com sua complexidade de aplicação a ACV é uma opção para o acompanhamento das questões ambientais relacionadas aos produtos, e pode contribuir para o desenvolvimento sustentável.

REFERÊNCIAS

FERREIRA, J. V. R.. Análise de ciclo de vida dos produtos. Disponível em:<http://www.estv.ipv.pt/PaginasPessoais/jvf/Gest%C3%A3o%20Ambiental%20-%20An%C3%A1lise%20de%20Ciclo%20de%20Vida.pdf> Acesso: em 16 maio 2013.

LIMA, A. M. F; CALDEIRA-PIRES, A; KIPERSTOK, A.. Evolução dos Trabalhos de Avaliação do Ciclo de Vida nas Instituições Acadêmicas Brasileiras. In: CONFERÊNCIA INTERNACIONAL CICLO DE VIDA, 2007, São Paulo.

COSTA, M. S. V.. O enfoque de ciclo de vida como estratégia para a gestão sustentável: um estudo de caso sobre pneus. 2007. 158f. Dissertação (Mestrado em Ciências em Engenharia de Produção) – Universidade federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change. Relatório estabelecido em 1988 pela Organização Meteológica Mundial – OMM e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA, para avaliar a informação científica, técnica e socioeconômica disponível no campo de mudança do clima. Cambridge Univ. Press., 1998.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ISO 14040 – Gestão Ambiental - Avaliação do Ciclo de Vida – Princípios de estrutura. 2001, 10 p.

CHEHEBE, J. R. 1998. Análise do Ciclo de Vida dos Produtos: Ferramenta gerencial da ISO 14000. Rio de Janeiro, Editora Qualitymark, 104 p.

TIBOR, T.; FELDMAN, I.. ISO 14OOO: um guia para as novas normas de gestão ambiental. São Paulo: Futura, 1996.


GIANNETTI, B. F.; ALMEIDA, C. M. B. V.. Ecologia Industrial: Conceitos, ferramentas e aplicações. Editora Edgard Blücher, São Paulo, 2006. ISBN 85-212-40870-5.

Texto desenvolvido  pela bióloca Marisa Daniele Scherer, Bióloga, M.Sc., Doutoranda do NPDEAS no Programa de Pós Graduação em Engenharia e Ciência dos Materiais (PIPE) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) durante a disciplina  'Biocombustíveis' ministrada pelo Prof. André Bellin Mariano, D.Sc.